Doente de admiração: sobre o conceito de akogare em Made in Abyss
João Lucas Mota Peixoto Ribas
Soredemo akogare wa tomaranai. Com essa frase se encerra a abertura de um desenho japonês pelo qual tenho muito carinho, chamado Made in Abyss. A frase, do japonês — e perdoe não trazer em kanjis, mas não domino tão bem a língua para isso — significa “mesmo assim, a admiração não cessa”. Penso haver nessas admirações que persistem durante nossa vida, concomitantemente, algo de belo, e algo de patológico…
O anime inicia em uma cidade, construída aos arredores de um enorme abismo milenar envolto em mistérios. Foi escrito por um mangaká chamado Akihito Tsukushi e retrata a história de duas crianças, a estudiosa e curiosa Riko, e o pequeno menino-robô Reg, que se decidem por explorar esse abismo, no qual acreditam poder desvendar mistérios que rondam a história de cada um: Riko quer saber o paradeiro de sua mãe, e se ela ainda se encontra com vida, enquanto Reg procura descobrir de onde veio, e por quem foi construído. Apesar da trama de cada um dos protagonistas, algo além os puxa para dentro desse abismo, como que incondicionalmente. Esse algo, como se insiste desde o início do anime, é a admiração (akogare) pelo abismo.
Difícil não ver paralelos com a filosofia, afinal, uma das ascepções atribuídas ao to thaumázein, que caracteriza o início de um processo filosófico, é admiração. A admiração ou o espanto por aquilo que é considerado banal, e que supõe-se não merecer atenção, é o gesto primeiro a partir do qual se problematiza o mundano, o senso comum, e se produz uma reflexão qualquer que pretenda inteligir de outra maneira aquela aparente banalidade. Não me demoro nisso, pois trata-se de uma concepção primordial da filosofia, cujo contato já tivemos no ensino médio, e senão, nas primeiras aulas de uma graduação meia boca qualquer, em filosofia. Seja como for, o que gostaria de rabiscar, é que Made in Abyss nos permite pensar o to thaumázein filosófico de outra maneira. Acontece que neste desenho, a admiração não nos aparece como um mero espanto, uma mera atração por aquilo que é aprazível, agradável ou curioso, mas como um sentimento paradoxal, capaz de nos fazer ir de encontro com as piores tragédias.
O abismo no qual os pequenos exploradores se aventuram, não é tão somente um lugar perigoso, no qual se tem que ter cautela e lutar com inimigos difíceis; o abismo, em Made in Abyss, é o espaço do maldito, do repulsivo e do escatológico. O contraste é, sem dúvida, proposital. De um lado crianças indefesas, inocentes, despreocupadas, completamente despreparadas para lidar sequer com as contingências de uma vida normal, e de outro, a materialização do mórbido, do pútrido, do amaldiçoado. As pequenas crianças rumam em direção a esse ambiente inóspito, e a cada nível que descem — num abismo explicitamente inspirado no Inferno de Dante — tornam-se mais amaldiçoadas. Uma jornada sem volta, aliás, pois é permitido descer mas não é permitido subir. A ascenção, em cada uma das sete camadas que compõem o abismo, resulta numa maldição diferente, como náuseas, hemorragia generalizada, alucinações, vertigens, morte e até perda da humanidade. Cada camada avançada reforça a impossibilidade do regresso, pois a maldição torna-se progressivamente pior. Além do mais, poder-se-ia fazer todo um artigo falando sobre as criaturas e as relíquias encontradas no abismo, uma mais asquerosa que a outra. Não trataremos disso agora. O que interessa é que esse degradado abismo no qual os jovens exploradores se atiram, não é um espaço somente misterioso, onde se pode desenvolver uma heróica jornada. Mesmo assim, eles continuam a explorá-lo. O que se evoca para justificar a insistência dos protagonistas em permanecer nessa jornada não são os propósitos particulares de cada um, mas é a própria admiração pelo abismo. Admiração que não cessa, que não deixa de cessar, não obstante todas as experiências trágicas propiciadas por esse abismo durante a trajetória do menino-robo e da pequena exploradora.
Para compreender a noção de admiração suscitada no anime, é importante que falemos um pouco da condição da Riko e da mística do abismo. Nossa querida protagonista é, na verdade, um zumbi sem livre-arbítrio. Essa é a revelação trazida por Ozen, uma shirofue tutora da mãe da protagonista, no arco da Floresta Invertida. Numa exploração realizada por Lyza — mãe de Riko — e Ozen, elas e seu time se depararam com uma relíquia, nomeada até então de “Caixa de Proteção contra Maldições”, pois aparentava prevenir aquilo ou aquele que estivesse dentro de sofrer com as maldições do abismo. Riko foi parida nas camadas profundas do abismo, já sem vida, o que, claro, fez com que Lyza ficasse extremamente frustrada. Ozen, irascível, revoltou-se com a situação, e simplesmente atirou o cadáver da criança dentro da relíquia, que levou à superfície. Quando abriram novamente a tal caixa, Riko estava viva, e assim descobriu-se o verdadeiro funcionamento daquela relíquia. A “Caixa contra Maldições” não prevenia maldição alguma, mas fazia voltar a vida aquilo e aquele que morre dentro dela. Ademais, qualquer coisa que fosse enfiada na caixa, sem vida, como um pedaço de carne, um animal qualquer, ou um cadáver amputado, apresentava um mesmo comportamento: andava em direção ao fundo do abismo, tal qual nossa pequena exploradora. Afinal, como profetizavam, de maneira um tanto enigmática e até um pouco folclórica, os exploradores mais experientes, “Aquilo que nasce do abismo retorna à ele”.
A empreitada de explorar o abismo de Riko e Reg não responde, portanto, a uma pura admiração, uma mera curiosidade, nem mesmo a necessidade de reencontrar com a mãe ou redescobrir o próprio passado; responde a um fatalismo, dentro do qual Riko não poderia nunca, decidir por fazer de outra forma. Essa pulsão que invoca Riko ao fundo do abismo, não é tanto produto da vontade da personagem, quanto um resultado de sua natureza: Riko é uma nare no hate, uma nascida no fundo, que desde o momento em que pisara na superfície estava destinada a retornar para o recinto degradado onde obteve a vida. Nessa incontinência esbanjada pela protagonista mistura-se o sentimento de admiração, que obtém assim mais o aspecto de uma compulsividade, uma doença ou uma condenação, que de um mero espanto a partir do qual passa-se a buscar respostas; à tentar sanar uma curiosidade. Não é exatamente, portanto, a admiração socrático-platônica ou aristotélica que Made in Abyss retrata, mas uma admiração doentia, que constrange os infelizes por ela atingidos a planos previamente fracassados, como uma expedição sem volta ao país das aberrações.
Radicalmente diferente dessa admiração patológica pensada por Akihito, está a admiração grega na qual vislumbra-se a origem da filosofia. Não se deve espelhar a jornada de Riko e Reg na alegoria da caverna de Platão, por exemplo, pois do abismo não é possível regressar. Mas o principal, penso, é que a filosofia grega não compreende o tipo de experiência que leva o casal a iniciar sua jornada. Em Platão, o conhecimento do bem aparece como causa necessária e suficiente da boa ação. Isso significa que aquele indivíduo que conhece, intelectivamente, o modo como se deve agir, não é capaz de agir diferentemente. O grego que mais se aproximou da experiência da incontinência, trazida pelo desenho, foi Aristóteles, que na obra Ética a Nicômaco parece pegar a contramão de Platão e considerar o conhecimento do bem causa necessária, mas não suficiente da boa ação.
Apesar da relativa consideração feita por Aristóteles a esses indivíduos incontinentes, as interpretações divergem, e tem quem negue essa leitura a partir da qual o conhecimento não é causa suficiente da boa ação, em Ética a Nicômaco. Essa é uma grande discussão no campo da filosofia, que não nos interessa agora. A questão é que mesmo considerando haver menção, em Aristóteles, a essa experiência da incontinência, esse tema é trabalhado pelo pensador de maneira um tanto solta e ambígua. Isso significa dizer que não figura na paisagem grega, ao menos, uma preocupação expressiva em entender essa experiência tão familiar, tão humana, e tão cara a Made in Abyss, da incapacidade de conter a si mesmo.
Eu gostaria de pensar, talvez, o fazer filosófico encimado nessa outra concepção de admiração. Na admiração patológica e mórbida elaborada por Akihito. A admiração certamente é o ponto de partida do fazer filosófico, mas ela não deve — ou nem sempre deve — ser pensada como puro resultado de um deslumbre ou um encanto.
A ideia geral seria a seguinte: essa perspectiva canônica e grega do conceito de admiração, tem como consequência implícita a desqualificação, enquanto filosofia, da obra de grandes filósofos contemporâneos, como Georges Bataille, Hannah Arendt, Michel Foucault, e, arrisco dizer, Giorgio Agamben, dentre outros. Isso porque reduzir a admiração a condição do indivíduo felicitado ou maravilhado com um vislumbre qualquer, seria negar a possibilidade de uma filosofia sobre o maldito — uma vez que este não é capaz de nos suscitar outro sentimento, que não o incômodo — ou, senão, pretender que, por exemplo, Hannah Arendt cultivava sentimentos de encanto, de deslumbramento, ao invés de sentimentos de repulsa, por Eichmann, analogamente a outros autores que estudaram monstruosidades semelhantes. Hoje, o marginal, maldito e o profano conquistam cada vez mais espaço na filosofia, um pouco na esteira da arte, que conta com movimentos como a poesia maldita e ou marginal, o surrealismo e o absurdismo. É preciso desenvolver uma concepção de to thaumázein coerente ao nosso tempo, e ao fazer filosófico emergente desse tempo. Essa é a inquietação filosófica a partir da qual gostaria de orientar este texto.
Para desenvolver um to thaumázein que nos caiba, o conceito de akogare (admiração) narrado na história de Riko e Reg, me parece profícuo. Dois elementos imbricados a este conceito, na obra, me levam a pensar isso. Primeiro elemento: o objeto a que a admiração dos personagens se destina, o abismo. Segundo elemento: o pano de fundo patológico, incontinente ou fatalista no qual se situa, e emerge, a admiração. É preciso esclarecer esses elementos, e sua relação com a filosofia.
Conta-se que Georges Bataille escreve A história do olho, depois de uma das visões mais terríveis — e, não neguemos, um pouco cômica — de sua vida. Após contrair sífilis, o pai de Bataille tornou-se progressivamente inválido para os afazeres do cotidiano, ao ponto de tornar-se dependente de seu filho, que se ocupava de seus cuidados. Certo dia, Bataille ao ajudar o genitor a defecar, percebeu que seus olhos reviraram-se, como se estivesse experienciando um orgasmo intenso com aquilo. Acontece que privado de todos os prazeres, o ato de defecar tornara-se, para o pai de nosso filósofo, o único dos prazeres da vida. Essa experiência terrível de Bataille, ganha seu sentido real quando a incorporamos e interpretamos com a ajuda da psicanálise, e a confrontamos com, por exemplo, a teoria do complexo de Édipo, de Freud. Não é o caso de esclarecer nem justificar a experiência que supostamente teria inspirado Bataille a escrever sua obra. O que nos é relevante, é que essa experiência intensamente escatológica e desgraçada, impulsionou o escritor francês a desenvolver toda sua teoria da transgressão.
Se admitirmos Bataille como filósofo o que também é uma questão, afinal, não é consenso que este seja um, — por motivos diversos, aliás, aos trazidos aqui — deveremos reconhecer nesse episódio escatológico de sua vida, uma admiração. Seria ridículo, todavia, afirmar que Bataille ficara maravilhado pela visão do próprio pai cagando, e tendo, com isso, um orgasmo. O objeto ao qual se encontra direcionada a admiração de Bataille -e arrisco aqui cometer uma vulgaridade, uma vez que nunca me aprofundei no autor- é a capacidade transgressora e excessiva da libido humana. É para esse lugar pútrido que Bataille direciona sua admiração, é esse fundo, que lhe serve de objeto de admiração, e que, consequentemente, lhe instiga a fatalidade de querer compreender. O que move sua filosofia não é, indubitavelmente, o encanto pela “bela cena” que seu pai interpretara, mas um certo arrebatamento, pela experiência limítrofe de escatologia e imoralidade, que fora vivenciada. É possível reconhecer nessa trama de Bataille, certamente, uma curiosidade pelas condições para que se chegue a esse fundo, essa região limítrofe, esse subsolo, mas é possível ler, também, um movimento filosófico de reconhecimento de toda a humanidade, nesse fundo, visto que desde que ela se entende como tal, não cessou em cometer as mais excessivas e hediondas transgressões.
Portanto, um primeiro paralelo: o objeto que catalisa a admiração, no caso de Bataille, assim como no caso dos protagonistas de Made in Abyss, é o fundo do abismo. Inversamente, o objeto que catalisa a admiração de Platão, por exemplo, em acordo com a alegoria da caverna, é justamente o mundo exterior, o fora. Contrariamente a boa parte dos filósofos antigos, que admiram-se pela superfície, pelo mundo externo, pelo sol, os contemporâneos destinam sua admiração ao subsolo, à caverna, ao fundo do abismo. É a faceta doentia, repudiável, e maldita da vida quem toma as rédeas do pensamento moderno — ou pós moderno.
Agora é preciso justificar, o segundo elemento imbricado ao conceito de akogare anteriormente enunciado: o pano de fundo patológico, fatalista e incontinente que envolve a trama de Riko e Reg, exemplificado anteriormente pela condição de zumbi destituído de livre-arbítrio, que assombra nossa jovem exploradora.
Dedicar-se ao estudo do que há de pior na humanidade, não é, certamente, uma experiência agradável. Refletir sobre o que há de melhor, sobre os atos heróicos e as grandes proezas da humanidade, sem dúvidas nos traz um sentimento mais pleno, que refletir, por exemplo, sobre detalhes da necropolítica que constrange milhões de imigrantes, hoje, a condição de indivíduos apartados dos Direitos Humanos. Não obstante os efeitos psicológicos mais imediatos do estudo sobre as desgraças da humanidade, insiste-se em estudá-las, em compreendê-las. Mas afinal, por que?
A psicanálise fez suas apostas. Freud concebeu um conceito, de difícil tradução, chamado unheimlich. De maneira imprecisa, pode ser traduzido por “estranha familiaridade”, e ilustra uma região cinzenta, na qual sentimos ao mesmo tempo uma estranheza, e familiaridade, com determinado objeto, pintura, comportamento, etc. Ademais, o conceito estabelece que a estranheza radical que sentimos por determinados indivíduos, comportamentos, imagens (etc.) advém de uma familiaridade nossa para com esse “estranho”, que no fundo de nossa psique, nos habita. Com esse conceito, tem que diga, é possível dar conta dos mais diversos comportamentos fascistas. Não sei se concordo, mas ao menos serve-nos de exemplo do fenômeno.
O cinema nos dá uma grande lição, com a popularização do gênero do terror. Repare que em todos os grandes personagens de filmes de terror, podemos entrever o unheimlich pensado por Freud. Por exemplo, Chuck é um brinquedo humanóide fortemente semelhante a uma criança humana. Apesar de dotado de pequenas características, que evidenciam sua estranheza, ele nos é, em certo sentido, familiar, porque carrega algo de humano em sua aparência. A lição fornecida pelo gênero do terror, não só, claro, no cinema, mas também na literatura, e na arte de modo geral, é a de que somos compulsivamente atraídos pelo unheimlich, apesar do desconforto que este nos suscita. Para a psicanálise, portanto, é por consequência dessa compulsividade pelo estranho-familiar, que insistimos em procurá-lo, não obstante o desconforto, medo ou agonia por ele suscitado. Essa característica não é, para Freud, um traço patológico, uma vez que trata-se de um traço comum e natural da psique. Assistir um filme de terror funciona, na verdade, como uma espécie de válvula de escape, para as pulsões de morte que integram a psique humana. Não seria, nesse sentido, no conceito de doença psicanalítico que reencontraríamos a admiração patológica de Akihito, mas há, certamente, no conceito de unheimlich, algo próximo daquilo que gostaríamos de descrever. A admiração patológica de Akihito poderá ser melhor reconhecida, na noção de doença que se tinha na antiguidade.
Para os antigos, adoecer não é um sinal arbitrário de anormalidade fisiológica, ou psicológica, causado por uma bactéria, vírus, trauma e ou recalque qualquer, mas um sinal deliberado da ira divina. Patologia, para um antigo, é um martírio divino, destinado àqueles que blasfemaram os Deuses ou profanaram seus templos, filhos, ou objetos sacros. É um fatalismo, até certo ponto inescapável, que atinge aqueles que agiram em desacordo às regras estabelecidas pelo divino. Penso que a admiração patológica seria algo de natureza semelhante. Um martírio inescapável, repentino, de origem enigmática, não necessariamente atribuído pelo divino, mas certamente carregado de um fatalismo; fatalismo esse que constrange sua vítima, como uma compulsão, a adentrar novamente o fundo do abismo, o subsolo, o país das aberrações, não obstante ter sido o passeio despretensioso e profano nesse recinto degradado, a causa de seu martírio. Um circuito, no qual o ponto de partida é, ao mesmo tempo, ponto de chegada. É como se, no momento em que Bataille percebeu o estado de seu pai, no momento em que Arendt acompanhou o tribunal de Nuremberg e no momento em que Foucault foi encarcerado num manicômio, estes penetrassem o Oráculo de Delfos. Em sua travessia, entretanto, o que encontraram não fora Apolíneo, mas Dionísio, que lhes anunciava um destino cruel. Estavam condenados a desgraçar-se até o fim da vida, buscando incansavelmente o que há de mais desagradável, e de menos maravilhoso, no humano. No desbravar inocente desses grandes pensadores, ocorreu-lhes de adoecer. Todavia, sem essa doença, dificilmente seriam capazes de suportar o peso de tamanha familiaridade com o maldito. Doentes de admiração, desbravaram o subsolo; se não o tivessem feito, continuariam infames, opacos, esquecidos e destinados a passarem despercebidos, àqueles que foram escondidos da cidade, selados nos esgotos, e lá, deixados para morrer…
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